Uma matéria publicada recentemente pela revista British Vogue (Is Having a Boyfriend Embarrassing Now?, Joseph, 2025) discute uma tendência curiosa nas relações contemporâneas: será que ter um namorado (a) se tornou algo brega? O artigo aponta que exibir o parceiro nas redes sociais, gesto antes associado ao carinho e até ao status, passou a ser visto com certo desconforto. Afinal, quem cresceu nos anos 2000 sabe bem que a primeira a namorar na escola era quase automaticamente a mais popular da turma.
Hoje, esse mesmo comportamento pode soar constrangedor. Amar alguém em público, com legendas carinhosas e selfies de casal, deixou de ser sinal de cumplicidade e passou a ser interpretado como algo antiquado, especialmente entre as gerações mais jovens. Assim, emerge uma nova estética do amor: discreta, fluida e, muitas vezes, quase invisível.
Dentro dessa tendência, o amor parece enfrentar um paradoxo. Ainda existe o desejo de se unir ao outro, de afirmar “essa sou eu com meu amor” no feed, mas há também o receio de parecer ultrapassado. O ato de declarar publicamente uma relação é agora uma escolha quase política. Enquanto o discurso da independência e da “soft life” domina as redes, o namoro tradicional ganha um tom vintage, um gesto que beira a ironia, ou, para alguns, o kitsch. A British Vogue descreve essa virada como um movimento em que “ter um namorado” passou a ser uma estética menos desejável do que aparentar liberdade.
Outros veículos internacionais seguiram essa discussão. No The Guardian, a colunista Emma Beddington (2025) questiona se “ter um namorado” é realmente algo “fora de moda” (Is it really outrageously uncool to have a boyfriend?), sugerindo que o medo de parecer cafona pode estar substituindo a naturalidade das relações. O artigo reforça a ideia de que as redes sociais moldam não apenas a forma como amamos, mas também como performamos esse amor.
Em 2025, amar alguém publicamente pode soar tão arriscado quanto antiquado. O amor exposto corre o risco de parecer forçado; o amor discreto, de parecer inexistente. Entre a fusão total e a estética da indiferença, resta o desafio de encontrar um meio-termo. Em tempos em que a comunicação é imediata e o afeto é quase sempre sinônimo de conteúdo, talvez o gesto mais radical seja amar fora da vitrine digital ou, quem sabe, publicar o amor sem medo de parecer brega. E aí, uma pausa para citar um dos meus textos e trechos favoritos de Caio Fernando Abreu:
“Sem platonismos, nem zen-budismos: quero que pinte o amor-Bethânia, dançar de rosto colado, pegar na mão à meia-luz, desenhar com a ponta dos dedos cada um dos teus traços, ficar de olho molhado só de te ver, de repente e, se for preciso, também virar a mesa, dar tapa na cara, escândalo na esquina, encher a cara de gim, te expulsar de casa e te pedir pra voltar.” (ABREU, 1996, p. 134)
Da fusão ao “eucentrismo”
Para entendermos a origem do amor como fusão, é preciso olhar para trás, para um tempo em que amar significava dissolver-se no outro. Durante séculos, a ideia de “alma gêmea” alimentou a noção de que só seríamos inteiros ao encontrar nossa metade perdida. Esse ideal, que atravessou mitos gregos, poesias românticas e canções populares, moldou o imaginário coletivo sobre o que é amar.
No entanto, à medida que as sociedades evoluíram e o individualismo ganhou força, o amor começou a mudar de forma. O sentimento que antes pedia simbiose passou a ser visto sob a ótica da autonomia. Nas últimas décadas, entramos em uma era que muitos estudiosos chamam de “eucentrismo” — um tempo em que o “eu” é o centro da narrativa, e a felicidade pessoal se tornou prioridade. Nesse cenário, amar deixou de ser perder-se no outro para se tornar compartilhar sem desaparecer.
Compreender essa trajetória, do amor-fusão ao amor-autonomia, ajuda a explicar por que ainda oscilamos entre o desejo de pertencer e o medo de nos apagar em um relacionamento. A seguir, uma breve linha do tempo que mostra como essa concepção de amor se transformou da Antiguidade à contemporaneidade.
Origem antiga
- Na Grécia antiga, já existe o mito de Platão (no diálogo *O Banquete) segundo o qual os humanos eram originalmente seres com quatro braços, quatro pernas e duas cabeças; o deus Zeus teria dividido-os ao meio e daí surgiu o desejo por “encontrar nossa outra metade”.
- A ideia dessa fusão de almas: “eu + você = um todo”, já circulava como metáfora para o amor que busca completude e união perfeita.
Idade Média e Renascimento
- Com o cristianismo e o pensamento escolástico, o amor passou a ser visto também em termos de união espiritual, sacrifício, e complementaridade entre os parceiros, embora sem necessariamente usar a linguagem “alma-gêmea” como no mito grego.
- No Renascimento, retomaram-se temas do platonicismo e da fusão de espíritos através da literatura e da filosofia, reforçando a noção de que o amor verdadeiro transcende o corpo e alcança a alma.
Romantismo (séculos XVIII e XIX)
- Durante o romantismo, o amor foi idealizado como paixão intensa, destino, união de almas, fuga do mundano, e a noção de fusão amorosa ganhou força: não apenas estar com alguém, mas “ser parte de alguém”.
- É desse período que advém o termo em inglês “soulmate” (primeira aparição documentada em 1822 por Samuel Taylor Coleridge) para designar alguém com quem se está predestinado a ter essa fusão.
Modernidade (século XX até hoje)
- Na modernidade a sociedade passa por transformações ( individualismo, mobilidade, cultura de consumo) e isso afeta como o amor é concebido.
- O modelo de amor-união ou fusão ainda persiste, mas encontra críticas: concepções de amor idealizado podem gerar expectativas irreais e sofrimento.
- Em contextos contemporâneos verifica-se a tensão entre “fusão” e “autonomia”: amar alguém e manter a própria identidade são vistos como desafios complementares.
- A ideia de alma-gêmea continua popular no discurso de cultura pop e relações, embora há produção acadêmica e crítica que avisa para os riscos de ver o parceiro como “metade perdida”.
Amor como fusão na fábrica de sonhos de Hollywood
Se você acredita em “felizes para sempre” e pensa que amor é sinônimo de fusão, vou te fazer uma revelação: você foi induzido a acreditar nisso, assim como eu, e cada ser humano na face da terra. Essa ideia foi promovida pela indústria cinematográfica de Hollywood, observando, por exemplo, o arquétipo do príncipe e da princesa que se converteu em padrão dominante de romance. Esse modelo sugere que amar é encontrar a outra metade, fundir-se no outro e cumprir um destino amoroso predestinado, além de reafirmar papéis de gênero e deixar à margem formas de amor que não seguem a cartilha heteronormativa.
Na trajetória de Hollywood, o romance muitas vezes assume a forma de conto de fadas moderno. Filmes em que um(a) protagonista comum encontra um “príncipe” — seja literal ou metafórico — reforçam a narrativa de que a salvação emocional vem do outro. Por exemplo, o filme The Prince & Me (2004) mostra exatamente essa dinâmica: uma estudante americana conhece um príncipe dinamarquês, e o enredo abraça a ideia de que o amor se completa com a fusão.
Esse padrão se retroalimenta no imaginário coletivo: o herói resgata a donzela, a princesa se torna famosa por estar ao lado do rei, o amor transforma-se em status emocional e social. No clássico Roman Holiday (1953), vemos a princesa que foge dos deveres reais para amar um homem simples, reforçando o ideal de que amar “alguém de fora” e abandonar o mundo comum é o ápice do romantismo.
Durante décadas, esse modelo príncipe + princesa = amor absoluto, funcionou como guia simbólico para relacionamentos. Ele legitima a fusão total, dizendo: “Encontrou-se a outra metade, agora há completude”. Isso alimenta a expectativa de que o relacionamento romântico é a principal fonte de felicidade e identidade. Na era da modernidade tardia, com ênfase no individualismo e na autonomia, essa expectativa permanece forte apenas com sutis variações.
Contudo, a persistência desse ideal gera desconfortos. A indústria hollywoodiana promove o amor-fusão como destino único, o que pressionou muitos a acreditarem que estar “sozinho(a)” ou sem esse tipo de amor significa fracasso. Mesmo em tempos de redes sociais, onde a identidade se constrói também fora da relação, a narrativa do “juntos para sempre” continua sedutora. Um artigo na plataforma Medium (sim, eu amo ler artigos no Medium) aponta que os tropes românticos mais bem-sucedidos envolvem fusão sentimental, destino e encontro da outra metade.
Nas redes sociais contemporâneas, o padrão hollywoodiano encontra nova vida e amplificação. Hashtags, fotos de casal, lives conjuntas, “stories” marcando o momento perfeito: todas reproduzem a estética de que o amor verdadeiro aparece, brilha e é exibido. Em contrapartida, o ideal de amor-fusão se mistura com a comunicação imediata e a cultura da performance afetiva. Quando o parceiro vira “metade” e o feed vira vitrine para ostentar a relação ou estilo de vida, o eu se dilui na narrativa do casal e a individualidade se esvai. Essa dinâmica pode gerar ansiedade, medo de falhar, necessidade de validação social e uma versão de amor que mais parece apresentação do que intimidade. E, vamos ser honestos: quais casais “perfeitos” nas redes sociais realmente são assim na vida real? Relação saudável é também diálogo, negociar, fazer ajustes e, isso não cabe na vida perfeita das redes sociais.
É importante refletir sobre o que isso significa para a forma como vivemos e comunicamos relacionamentos hoje. A industrialização do romantismo hollywoodiano nos trouxe uma estética de fusão que já não corresponde à complexidade do amor contemporâneo, que exige companheirismo, autonomia, vulnerabilidade e, por vezes, aceitação da imperfeição. Se o amor-fusão prometia completude, talvez o amor verdadeiro seja o que permite: duas pessoas capazes de se amar sem perder a si mesmas, de identificar o outro sem apagar o eu.
Juntos… mas a que custo?
Se você assistiu ao filme Together em casal e sobreviveu ao desconforto, parabéns: a relação evoluiu de nível. Brincadeiras à parte, a produção se desenvolve a partir de uma premissa familiar à estética do “amor eterno” e logo a subverte de forma incômoda. O casal que se muda para o campo em busca de um recomeço acaba literalmente colado um ao outro e mergulha em uma espiral de horror corporal. A metáfora de que “amor é fusão absoluta” transforma-se, no filme, em um monstro de pele, de carne e de medo, que leva a simbiose a um limite quase insuportável.
É incômodo assistir, porque o filme nos obriga a reavaliar a própria visão de amor romântico como ápice da realização humana. A cada cena, somos confrontados com a fragilidade da linha que separa amar alguém e perder-se por completo, entre o “nós” exaltado e o “eu” apagado. A indústria hollywoodiana, revisitada aqui por meio de um horror autoral, reforça há décadas um ideal de submissão emocional e de conjugalização como destino inevitável. Together inverte essa lógica: amar não é encontrar a metade, mas talvez descobrir que fundir-se pode significar mutilar-se, como observa a crítica, “a metaphor of attachment finally isn’t just about visualising co-dependence” (Rotten Tomatoes, 2025).
Visualmente, o horror corporal “gore” do filme transforma romance em espetáculo de repulsa e fascinação. A intenção é nos deixar desconfortáveis, o que surte efeito. O amor-fusão glamouroso perde o verniz e se revela grotesco, melancólico. Talvez o desconforto seja proposital, para mostrar que o tão vendido “amor para a vida toda” carrega em si uma cláusula oculta: e se “para a vida toda” for sinônimo de prisão emocional?
Em resumo, Together não é apenas mais um filme de casal em crise. Ele atua como um espelho incômodo: o amor idealizado, o “juntos para sempre” que Hollywood promove, é revisitado aqui como arquitetura de fusão forçada, de corpo compartilhado, de identidade obliterada. Ver-se refletido nisso é desconfortável, mas necessário.
É possível amar de forma saudável?
Na era do “eu no centro”, ou eucentrismo, como eu gosto de chamar (e não, não faço ideia se essa palavra realmente existe), o lema “ser protagonista da própria vida” tornou-se um verdadeiro mantra. No entanto, existe um risco silencioso para as relações amorosas: o que antes era liberdade pode facilmente se transformar em solidão a dois.
Recentemente, vi um vídeo de uma influenciadora que, aos trinta anos, afirmou nunca ter namorado e explicou que ela é a prioridade número um da própria vida. Claro que se valorizar e reconhecer seus limites é algo essencial, sobretudo quando falamos em gênero. Estatisticamente, as mulheres ainda são as que mais se anulam emocionalmente em nome do bem-estar do parceiro. Essa consciência é libertadora e necessária.
Entretanto, o movimento de valorização extrema do indivíduo, de sua história, de seus direitos e de seus desejos altera a lógica da convivência a dois. Ele exige que o outro aceite um papel de coadjuvante ou que o “eu” permaneça absoluto. E aqui está o ponto delicado: não existe relacionamento se você é o protagonista o tempo todo. Amar envolve ceder, ouvir, equilibrar espaço e presença. A vida a dois não é um roteiro solo, e sim uma construção onde o protagonismo se alterna: às vezes eu, às vezes nós.
O discurso atual proclama que cada pessoa deve “realizar-se” primeiro, construir sua identidade, autonomia, propósito. E isso é saudável. Mas quando levado ao extremo, pode tornar a relação um palco de competição entre “minha narrativa” e “nossa narrativa”. Estudos apontam que o individualismo excessivo reduz a harmonia dos grupos e compromete a intimidade porque a mentalidade de “eu primeiro” enfraquece o “nós” (TRIANDIS, 2023)
O desafio é: como amar sem me apagar? Como unir-me sem perder-me?
A saída, arrisco dizer, não está em sacrificar o eu, tampouco em manter-se indiferente ao outro. Está em construir uma “autonomia compartilhada”. Isso significa manter identidade própria, valores, sonhos, mas também cultivar escuta verdadeira, mudança recíproca, priorização do “nós” sem anular o “eu”.
Num mundo em que o feed, a selfie, o story reforçam que “eu sou meu próprio projeto”, a contracultura do vínculo interpessoal exige coragem: admitir que amar inclui vulnerabilidade, transformação e “abrir mão” de certas certezas por um tempo. Relação saudável não é fusão total, tampouco individualismo radical; é dança dos dois corpos, onde um dia um oferece 60%, no outro dia o outro oferece 10%. Dois mundos, dois projetos que se encontram e se entrelaçam sem confundir linhas.
Gosta do assunto? Deixo aqui algumas dicas de podcasts que discutem amor e individualidade nos tempos contemporâneos.
Bom Dia, Obvious. (2025, 8 meses atrás). Episódio #285 “Um trabalho chamado amor, com Adriana Ventura” [Podcast episódio]. Spotify. https://open.spotify.com/episode/1M5mHyvq2qDSxATNyUm605?utm
Bom Dia, Obvious. (2025, 9 meses atrás). Episódio #280 “Reinventando afetos, com Francine Tavares - pt.1” [Podcast episódio]. Spotify. https://open.spotify.com/episode/0ViJU4ParPlJNOEiDi4rAs?utm_sourc
Vibes em Análise. (2025, 13 Mai 2025). Episódio “Intimidades Sintéticas” [Podcast episódio]. Spotify. https://open.spotify.com/episode/4psrr7b7VHi6nlPgjf4fxN?si=hOxYcCbTRPOUYOxHkq-_FA Spotify
Gostosas Também Choram. (2025, 29 Abr 2025). Episódio “Para de se apertar para caber” [Podcast episódio]. Spotify. https://open.spotify.com/episode/4Qkb77ueCJADcRYp2u3Qi0?si=kPMBWvHNSvSBJtXEmOItLg Spotify
